Literaturas & Linguagens da Arte

Este blog tem por objetivo dialogar com as disciplinas ministradas por mim na Faculdade de Letras da UNESA, na qual trabalho, bem como o de difundir os diálogos entre as culturas brasileira e africana.

2

de
novembro

Visitas ao Abrigo

Sempre participei de projetos sociais. Lia para cegos, visitava orfanatos, quando era estudante, tanto de segundo grau, quanto da Universidade.

Pude retomar estas atividades no Projeto que bolei e que desenvolvo através da Diretoria da Extensão, com a presença de  quase 15 alunos da Faculdade de Letras. Visitamos o abrigo já por três vezes e brincamos, contamos histórias e levamos um pouco de cidadania para aquelas crianças e adolescentes.

É muito bom fazer o bem.

Venham conosco, as atividades irão até novembro.

22

de
setembro

Projeto Letras Abrigadas

Os alunos  que queiram participar, me contactem por e-mail: norma.lima@estacio.br

Letras abrigadas

 

PROJETO DE PESQUISA: Letras abrigadas: oficinas de leitura e de escrita nos abrigos da cidade do Rio de Janeiro

 

DELIMITAÇÃO DO TEMA: Oficinas de letramento, de contação de histórias e de produção de textos verbais ou não-verbais para crianças e adolescentes de abrigos.

 

JUSTIFICATIVA: Despertar o gosto pelos livros e a percepção de que a leitura possibilita contato com histórias que tanto nos distraem como ensinam, em receptores de faixas etárias diferentes, em contexto de abrigos da cidade do Rio de Janeiro é uma prática de inclusão. As atividades que norteam práticas de leitura dizem respeito ao letramento, enquanto domínio de competências para o indivíduo ir além da simples aquisição de conhecimentos, demonstrando competências para aplicar esses  leituras de textos variados no seu dia-a-dia. Deste modo, visa estimular os integrantes a valorizarem a sua participação no mundo como cidadãos.

 

 Estimular o ato de contar e de ouvir histórias, mantendo viva uma tradição das mais antigas, praticadas pela humanidade e surge a partir da necessidade de transmitir: histórias oralmente. Estas não perderam o poder de encantar, sejam adultos ou crianças.

 

A Oficina objetiva, igualmente, incentivar a produção de textos dos participantes, seja na forma de poesia ou de outras maneiras de expressão artística ou não para, deste modo, promover interação efetiva entre os participantes.

 

RELEVÂNCIA CIENTÍFICA: Incentivar procedimentos que envolvam habilidades e competências na área da leitura é prioridade nos programas governamentais nacionais e internacionais, tais como SAEB, PISA, Prova Brasil, entre outros. Longe de se ater a um procedimento escolar, estas se situam em um projeto mais abrangente, que pretende fornecer susbsídios de cidadania, através do domínio da leitura e da escrita.

 

RELEVÂNCIA SOCIAL: O projeto apresenta sintonia com os direitos da criança e do adolescente  presentes na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

INTERESSE: Contribuir para minimizar deficiências de habilidades verbais e escritas da criança e do adolescente de abrigo, bem como  promover a inclusão destes na sociedade.

 

 OBJETIVOS:

Estimular a percepção da leitura, examinando a capacidade dos participantes da Oficina de analisar, raciocinar e refletir ativamente sobre seus conhecimentos e experiências, enfocando competências que serão relevantes para suas vidas futuras.

Promover o letramento a fim de definir ações voltadas para a correção das distorções e da redução de desigualdades educacionais e sociais.

Incentivar tanto as atividades de leitura quanto a de produção de textos a partir dos aspectos lúdico e do aprender com sabor, dissociando tais práticas das que, costumeiramente ocorrem nos ambientes escolares.

Promover a contação de histórias para preservar a marca da memória ancestral, bem como a de aprimorar essas habilidades verbais nos ouvintes e possibilitar, igualmente, o desenvolvimento de capacidades de leitura, que os auxiliarão tanto no aspecto pessoal, quanto no profissional.

METODOLOGIA: Essas atividades são compostas de trabalhos psico-pedagógicos, recreativos, de integração e cooperação – textos de diferentes tipologias, músicas, jogos – sempre pontuadas por valores educativos, como o respeito ao próximo

 

CRONOGRAMA

4 encontros de duas horas no mês de setembro nos abrigos

4 encontros (de duas horas) no mês de outubro nos abrigos

 

PREVISÃO DE RECURSOS

Material a ser utilizado:

Aquisição de livros paradidáticos que serão doados ao abrigo.

Papel ofício (1 resma),

 lápis de cor (10 caixas com 12 cada uma),

 borracha (10 unidades),

 lápis comum (1 cx. com 30).

 

20

de
setembro

2009/2 e Bienal do Livro

Neste semestre trabalho com, além das disciplinas do semestre anterior, Gêneros Textuais, Linguagens da Arte e Comunicação Oral e Escrita, esta última no Curso de Serviço Social.

As três deempenham importante função dentro dos propósitos de habilidades e competências de leitura, solicitas pelo MEC, e verificadas não só ao longo da trajetória acadêmica dos alunos, como posteriormente, na continuação dela em strictu e latu sensu ou mesmo no mercado de trabalho.

A primeira aborda as mais modernas concepções de leitura, relacionadas a texto como tendo seu sentido fornecido pelo leitor. A segunda, mostra a relação da imagem com a cultura geral e nacional e a terceira, é fundamental no exame das relações entre orlidade e escrita.

Além das aulas, neste semestre comecei a trabalhar na Vice-Reitoria de Extensão e Artes, estou simplesmente adorando. É muito interessante observar como a Estácio desenvolve projetos voltados para a área social e afins.

Caso queiram me contactar, estou no e-mail:

norma.lima@estacio.br

Estive ontem na Bienal do Livro. Não paguei 12 reais por ser professora, e algumas editoras nos davam 20% de desconto. Consegui comprar 17 livros, mas achei caro. Poucas ofertas. Gostei por ver que a frequÊncia estava grande. Livro é sempre bom.

Só não entendo o porquê de certa histeria com autores… como aconteceu com essa tal de Thalita Rebouças. Cada geração tem a Cecília Meireles, a Ana Maria Machado e a Lygia Bojunga que merece…

16

de
agosto

Cabo Verde e Guiné Bissau

Sábado passado tive a oportunidade de ir a Macaé participar, como professora convidada, de um curso sobre a produção lierária de Cabo Verde e da Guiné Bissau para alunos da Pós-Graduação do Curso Afrocartografia, na FUNEMAC.

O convite foi feito pela professora Sônia Santos, coordenadora do Curso. A conheço desde 1994, quando então fazia meu Doutorado em Literatura Comparada na UFF e ela terminava o Mestrado, ambas orientadas pela professora Simone Caputo, hoje na USP.

Foram momentos muito agradáveis! A pedido de Sônia, mostrei os percursos de ambas as literaturas e levei apoio de mídia, com imagens, música e vídeos, inclusive de Cesária Évora.

Agora, está nos planos irmos a Cabo Verde e ao Museu afro-brasileiro, em SP.

20

de
julho

O semestre acabou, a Literatura, não…

E lá se vai mais um semestre acadêmico!

Neste, trabalhei duas disciplinas (Literatura Brasileira III e Literatura Contemporãnea), nas quais procurei desenvolver, como é de praxe no meu trabalho, além da consciência crítica dos discentes, uma reflexão acerca das questões éstéticas permeadas pelas históricas.

No programa de Brasileira, ressaltei elementos étnicos que compuseram a trajetória dos pré e dos modernistas. No último post criado aqui, Macunaíma sintetizou bem este desejo, ao assinalar a matriz de formação brasileira ; índia, européia e africana.

Um destaque do curso também foi a atenção que lancei à geração de 30, erroneamente classificada por aí como nordestina. Além de estudarmos os romances de Graciliano Ramos (debatemos Vidas Secas)e José Lins do Rego, entre outros autores, não deixei de fazer menção à prosa sulista de Érico Veríssimo, ou aínda as desenvolvidas na região Sudeste, com Lúcio Cardoso e Marques Rebelo.

A geração de 45, com as apreciações das obras de Clarice Lispector (lemos o primeiro romance dela, Perto do coração selvagem), Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto fechou os trabalhos com chave de ouro. Apesar das dificuldades que todos nós enfrentamos, alunos que são também trabalhadores e que custeam seus estudos, além de outros que atingem diretamente a nós docentes, como a extinção do Curso de Letras no Campus Nova América da Universidade Estácio de Sá, demos o exemplo, trabalho dedicado, honesto, que rema contra a maré.

Já a Literatura Contemporânea dividi em décadas e temáticas, frisando nos anos 50 o Concretismo, nos 60, o Tropicalismo, em 70, a Poesia de Mimeógrafo, em 80, o Memorialismo e o conto e em 90. a literatura de gênero. Lemos grandes obras, como Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva; Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu; Inferno, de Patrícia Mello; além de poemas esparsos.

As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, que viraram disicplina on line, (fui a conteudista das dez aulas que estão disponíveis para os alunos virtuais), nunca saíram do meu coração. E embora eu não escreva tanto a respeito por aqui (abordo mais os conteúdos curriculares das turmas presenciais que possuo), estou sempre antenada com as novas que saem por aí a respeito dos autores africanos. Duas ótimas notícias foram o Prêmio Camões a Arménio Vieira, um dos meus poetas cabo-verdianos preferidos de sempre. Outra boa foram os eventos organizados nos SESCS cariocas sobre a cultura afro-brasileira, com peças de Cabo Verde, Moçambique, encontros e mais encontros especiais.

Como quem planta flor, não colhe mato, meu querido aluno e amigo Ricardo Riso tomou gosto pela matéria ao ser meu aluno no Campus Nova América, lá mesmo, onde extinguiram Letras. E perambula por aí, me representando. Que orgulho dele! Até orelha de livro ele escrfeve agora, é um exemplo para seus colegas que também têm uma vida de cão, mas que ao invés de chorar, coloca a mão na massa. É isso aí, Irmão. Quem quiser ficar por dentro do que rola nestas esferas, é só ir ao blog dele, que tem o nome poético como a alma de Riso: Sonhos não envelhecem.

http://ricardoriso.blogspot.com/

Ao Ricardo, dedico este poema de Drummond, ele é que uma flor agreste do meu jardim literário;

 

A Flor e A Náusea 

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cizenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

 

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a  pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

 

Vomitar este tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam pra casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

 

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

 

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

 

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

28

de
maio

Memórias sentimentais de João Miramar

Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, é o primeiro cadinho da prosa moderna brasileira, no entender do grande poeta e justiceiro Haroldo de Campos.

Justiceiro por quê? Porque ele e Antônio Cândido ajudaram, ainda na década de 50, após a lamentável morte de Oswald, ao resgate da obra do autor, considerada "menor", provavelmente por seu lado militante e humorístico. Autores com preocupação social no Brasil, são logo rotulados como panfletários. Autores que incorporam o humor em seus trabalhos, são diminuídos, pois que a "seriedade" acadêmica não pode ser contaminada pelo humor.

Inflexibilidade no tratamento dos "gêneros", como se eles não fossem híbridos… Épico, Lírico, Dramático… a Comédia desassistida e Gil Vicente só botando pra quebrar na Idade Média…

O livro de Oswald, Memórias sentimentais, não é para leitor acomodado. Exige de nós que entendamos aqueles fragmentos como flashs,  um kodakar, como bem ilustrou sempre brilhantemente Antônio Cândido. O livro não tem capítulos. Não quer nos adular, como também não desejou fazê-lo com o leitor daquela época. Para aquele, inclusive, Oswald pregou uma peça: inventou um personagem, construído dentro do esquema academicista, de tudo que ele e sua obra sempre negaram (o país dos doutos que não resolve suas mazelas sociais). Assim é que Machado Penumbra apresenta o livro que mostra as memórias de um burguês cuja história pouco nos interessa. Esse paradoxo é muito interessante. Aquele que escreve suas memórias entende que, com elas, deixa um testemunho para outros. Não é o caso de Miramar, que nem sequer as conclui. O que ele deseja é fazer desfilar diante de nós a sua existência entre boullevards, cafés, grêmios recreativos, viagens, polvilhados aqui e ali com dramas como o da crack da bolsa, de 1929, exemplificado neste magistral poema incluído em um dos fragmentos da obra:

Verbo crackar

Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa.
Sê pirata
Sede trouxas
Abrindo o pala
Pessoal sarado

Oxalá eu tivesse sabido
Que esse verbo era irregular

Embora classificado como memórias, Miramar não se insere neste gênero. O livro abre para uma riqueza tipológica nunca vista antes na Literatura Brasileira: é romance, narrativa epistolar, entrevista, poema, tudo ao mesmo tempo e mais alguma coisa. 

Recuperado nos anos 60 pelos tropicalistas, encenado pelo Teatro Oficina, Oswald de Andrade estava à frente do seu tempo? Não, gênios nunca estão à frente e sim antenados com a sua época. Alguns contemporâneos dele é que estavam atrasados no tempo.

22

de
maio

Modernismo Brasileiro - parte 1

1917, São Paulo. Anita Malfatti, pintora paulista, chegada da Europa, local em que tomou contato com as vanguardas que lá vinham se desenvolvendo desde o século XIX, resolveu pôr em prática, em uma exposição, as novas idéias. A idéia lhe valeu um artigo desaforado de Monteiro Lobato - "Paranóia ou mistificação? - e serviu como origem da Semana de Arte Moderna, que se desenvolveria cinco anos mais tarde, em fevereiro, no Teatro Municipal paulista.


Isto porque, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros, que também estavam sintonizados com o sopro do novo que se fazia necessário chegar ao Brasil parnasiano, da República Velha e do academicismo dos boullevards inspirados na França, não mediram esforços para, em algumas noites que reuniram manifestações variadas como a da escultura (Vitor Brecheret), da música (Villa Lobos), da pintura (Tarsila do Amaral), poesia (Mário de Andrade) entre outros, que o Brasil fizesse parte do que já estava acontecendo: a renovação.


Sou suspeita para falar do Modernismo. Me defino como Modernista e Tropicalista , porque sabemos muito bem que o Modernismo serviu de fonte para as estéticas que se seguiram a ele a partir da década de 50 (Concretismo, Tropicalismo, Poesia de 70…)

Mais do que tudo, as idéias modernistas não foram somente extensivas à produção artística, mas também reivindicativas da transformação social e política necessária ao país.


Sou suspeita e estudiosa do tema desde meu Mestrado cursado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no período de 1990-1993, quando defendi dissertação sobre Patrícia Galvão, a nossa Pagu; quando continuei esta pesquisa enfocando a recepção modernista em Cabo Verde, a partir da década de 30, em Doutorado concluído da Universidade Federal Fluminense, entre 1994-2000. Suspeitíssima na minha paixão por Oswald de Andrade, no meu respeito a ele e a todos que pensaram este país e tentaram melhorá-lo, um dia (e ainda aos que tentam…)


Sabemos que as Vanguardas Européias traziam a constestação às idéias racionalistas que enfocavam o mundo com suas próprias lentes. Assim é que Baudelaire propõe que o artista deixe o claustro para enfrentar a dura realidade das galerias capitalistas de uma Revolução Industrial que venceu, mas que não vai derrotar a sensibilidade. É por isso que conclama que o poeta seja um voyeur, que se misture às ruas sem ser, por elas, devorado. Teremos, igualmente, Mallarmé nos ensinando a ler também os espaços em branco de uma página, não somente as letras, ensinando nosso olhar a deslizar pelo vazio e nele compreender significações. Ler o silêncio. Encontraremos, igualmente, uma humanidade cansada do poder racionalista que criou, inventou, superestimou a máquina e esqueceu das aspirações humanistas. A civilização que não conseguiu minimizar as diferenças sociais e desembocou numa Primeira Guerra Mundial, de disputa do velho poder. Por isso, o retorno ao primitivismo, à arte africana, da nossa mãe África, nossa origem.


O Brasil das primeiras décadas, de nacionalismo vindo do Romantismo de natureza ufanista, precisava "repaginar" sua identidade. Depois do Positivismo e de suas classificações preconceituosas sobre raças inferiores e superiores, o índio, antes idealizado na esfera de Rousseau no século XVIII como "bom selvagem", elevado a tema romântico (indianismo) com valores clássicos de José de Alencar e Gonçalves Dias assume um papel depreciativo de "raça inferior", como o negro e o próprio português. O Brasil se vê, desta forma, lido em sua matriz como nação inferior, fadada ao fracasso pela sua mistura étnica, precisando "clarear", como desejou Sílvio Romero.


É fundamental, assim, que Anita Malfatti, em 1917, tenha trazido uma visão expressionsta do mundo, pois era preciso que uma certa subjetividade enfocasse uma pretensa realidade preconceituosa e interessante (como sempre) para a elite branca e "pura", defensora da ideologia capitalista.
Entender a pintura de Anita, de Tarsila do Amaral, de Portinari, a literatura de Oswald, de Mário é ser brasileiro, é homenagear uma proposta de inserir o homem brasileiro na cena. Voltarei ao apaixonante assunto!

Erro de Português - Oswald de Andrade

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

14

de
maio

Lima Barreto, escritor mulato

Afonso Henriques da Lima Barreto trazia uma marca peculiar: era mulato. É interessante notar, embora a biografia associada à produção literária ainda eriçe os cabelos de muitos estudiosos, a escassez de autores negros na Literatura Brasileira, bem como o de autorAs. Na verdade, a segunda afirmação não confere, pois que autoras sempre existiram, mas não tiveram suas obras divulgadas como mereciam. Sempre digo para meus alunos da Faculdade de Letras que são sempre as mesmas as estudadas: uma Florbela, uma Cecília, uma Clarice… e olhe lá. E recomendo que se interem dessa produção o quanto antes, começando pelo excelente trabalho feito por Nelly Novaes Coelho em Dicionário crítico das escritoras brasileiras, publicado em 2001 pela editora Escrituras.

À primeira afirmação, acrescentemos: escritores e escritoras negras foram mesmo raros em nosso país, de população negra majoritária. Razões históricas explicam essa lcuna, não provocada por falta de talentos e sim por falta de oportunidade.
Vejamos… nas Letras tivemos Gregório, o Boca de Inferno, mulato; Machado de Assis, mulato; Cruz e Souza, negro; Lima Barreto, mulato. Todos pagaram esse estigma, sem dúvida nenhuma, alguns apontando mais evidências disso em suas obras, outros, menos.
Não há como apreciar Lima sem a observação desta sua condição étnica, exteriorizada em seus romances e contos. Aliás, a obra dele aponta para os excluídos, os à margem, os descentrados, pobres, humildes, explorados… por isso o escritor adota a linguagem coloquial em seu texto, sendo acusado de escrever mal, mas faz isso com a intenção de aproximar a literatura da fala do povo - esse excluído dos finos salões em que a cultura erudita sempre cismou em prender a arte literária.
Por essa estratégia lingüística e pelo tratamento que dá à sua matéria literária, ele pode ser considerado um modernista. No ano em que a Semana de Arte Moderna aconteceu, segundo matéria publicada na revista Cult, Sérgio Buarque de Holanda, com uma Klaxon oswaldiana na mão, vai até à livraria da Rua do Ouvidor na qual Lima dormia, após mais um porre, para convidá-lo a participar da SAM. Os modernistas eram admiradores da sua obra, mas Lima, já adoentado por conta do alcoolismo que viria a matá-lo em alguns meses, e irritado pelo nome inglês da publicação (klaxon=buzina) declina do convite e segue para o bar, sendo seguido pelo inconsolável Buarque de Holanda. No botequim, já de manhã, no meio dos que já se encontravam bêbados, ele era um rei. E não só lá!
No curso, lemos Triste fim de Policarpo Quaresma, além de termos falado de outras obras do autor. Recomendo que assistam ao filme, com Paulo José, como comparação interessante.
Abraços e comentem, alunos e possíveis leitores. Não sejam tímidos!

18

de
abril

Augusto dos Anjos, o punk do início do século

É curioso observar como alguns dos autores da chamada fase Pré-Modernista, a saber Euckydes da Cunha, Augusto dos Anjos e Lima Barreto, vão se afastando, cada um no seu contexto e a seu modo, do intragável Positivismo de Comte, tropicalizado entre nós por Oliveira Lima, Sílvio Romero, Manoel Bonfim e outros, este vai, curiosamente, se dissolvendo na medida em que a produção literária daquela geração se aproxima do que se convencionou chamar de Modernismo Brasileiro. Sim, porque, Euclydes, Augusto e Lima também foram vanguarda.

Vejamos a poesia de Augusto dos Anjos: publicada em único volume e obra, denominada EU, é o próprio retrato do plural, embora traga a marca da primeira pessoa do singular. De que pluralidade falamos? Da invisível dos centros elegantes da antiga capital republicana, que imitava  os costumes europeus, sem resolver a injustiças sociais que se arrastavam há longa data.

Os versos augustianos não têm nada de augustos, são ousados e riscam os salões dos saraus, nos quais a literatura era vista como sorriso da sociedade. Sorriso que se mostra cariado pelas feridas, pus e morcegos que a lírica de Augusto dos Anjos trazem, evidenciando a periferia, os sem lugar, os do espaço da exclusão.

"Mas vos não lamenteis, magras mulheres,
Nos ardores danados da febre hética,
Consagrando vossa última fonética
A uma recitação de misereres. " (Os Doentes)

A recitação de misereres nos salões parnasianos era mesmo uma afronta. Ao poeta, muito menos, impressionavam os discursos histéricos da exaltação do progresso, da máquina, tudo vendido pela Revolução Industrial, também ela fruto do capitalismo e do racionalismo que elegia a máquina como um deus.

"O enterro de minha última neurona
Desfila… E eis-me outro fósforo a riscar
E esse acidente químico vulgar
Extraordinariamente me impressiona!

Mas minha crise artrítica não tarda.
Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,
Na abjecção embriológica da vida
O futuro de cinza que me aguarda!" (Mistérios de um fósforo)

Sim um urubu pousara na sorte dele (Budismo moderno)! Por isso, nos aconselhava a nos acostumar à solidão, já que ninguém assistira ao enterro da nossa última quimera…  (Versos íntimos). Por essas e por outras, exaltando as etnias marginalizadas daquele momento (como o negro e o índio), porue consideradas sub-raças pelo discurso racista legitimado pelo Positivismo, que nas aulas de Literatura Brasileira III que dou nos campi Méier e Nova América, chegamos à conclusão de que Augusto dos Anjos era punk. Como ler seus poemas e não nos lembrarmos da canção Punk da Periferia? Abrãços!

Punk Da Periferia
Gilberto Gil
Composição: Gilberto Gil

Das feridas
Que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto
Restaria aos urubus
Pus por isso mesmo
Este blusão carniça
Fiz no rosto
Este make-up pó caliça
Quis trazer assim
Nossa desgraça à luz…

(…)

Esgotados
Os poderes da ciência
Esgotada
Toda a nossa paciência
Eis que esta cidade
É um esgoto só…

 

9

de
março

Euclydes da Cunha, marcas étnicas em Os Sertões

A disciplina de Literatura Brasileira III, ministrada na Faculdade de Letras da Universidade em que trabalho, tem como centro o estudo das três gerações modernistas brasileiras. Obviamente que, em todos esses anos em que sou responsável por este conteúdo da grade, nos Campi Méier e Nova América, os antecendentes são trazidos para uma maior compreensão, da parte do discente, de como o Modernismo foi muito além de uma questão estética, situando-se, principalmente, como proposta política de condução, não só do modo de vida nacional, mas como o de outras sociedades de base colonizatória.
Muito acertada (e com justiça) me deram esta disciplina, já que o Modernismo sempre esteve no foco dos meus estudos acadêmicos, tendo eu defendido uma dissertação de mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 1993, sobre a crônica e o romance modernistas de Patrícia Galvão (ou Pagu). Além do que, dialoguei tal pesquisa com as literaturas africanas de língua portuguesa por ocasião dos meus estudos de Doutorado, na Universidade Federal Fluminense, como já detalhei aqui.
Iniciei o curso sobre Modernismo a partir das idéias teóricas que Luiz Roberto Lopez defendeu no livro Cultura Brasileira, de 1808 ao Pré-Modernismo. Era leitura do curso de Cultura Brasileira com o qual trabalhei por três anos no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como professora contratada. O capítulo em questão Reflexões sobre o homem brasileiro: cientificismo, racismo, fatalismo, eurocentrismo, aborda com muita propriedade os vínculos do século XIX com os discursos racistas motivados por uma estranha aliança entre a ciência e a intolerância, por conta da difusão do Positivismo.
É fundamental que esse triste capítulo da nossa cultura seja muito bem conhecido para que o aluno consiga perceber de que maneira os autores da chamada fase Pré-Modernista, vão se deslocando destes modelos que acreditam existirem raças superiores e inferiores, cujos divulgadores, no Brasil, adotaram as postulações de Gobineau, adaptando-as às questões
nacionais. Assim, por exemplo, Sílvio Romero trará a idéia de que a saída para o Brasil seria ele se tornar branco, de forma gradativa, haja vista a grande quantidade de africanos, herança do tráfico. Nascia o deformado conceito de que era necessário clarear as famílias, coisas que, infelizmente, ouvimos até hoje por aí…
Euclydes da Cunha, Augusto dos Anjos e Lima Barreto trouxeram, em suas obras, evidências destas construções positivistas, das quais estiveram terrivelmente próximos. Não há como, neste momento, deixar de enlaçar suas produções literárias a traços biográficos. Como dissociar Euclydes da sua crença na revolução que a Proclamação da República não foi? Não esqueçamos de que fora o Exército que resolvera dar um golpe na Monarquia que, disfarçadamente, ainda existia por aqui na presença de Dom Pedro I e, posteriormente, na de Dom Pedro II, este, brasileiro e, de fato, bem adaptado aos Trópicos. O marechal Deodoro da Fonseca, ao nos tornar republicanos, bordou na bandeira brasileira um lema positivista Ordem e Progresso. O que seria desordem e retrocesso? Uma revolta como a contrária não à vacina, mas ao despejo de centenas de família que teriam que sair do centro do Rio, uma república moderna, que queria ser siamesa de Paris? Uma rebelião como a de Canudos, no obscuro Nordeste, que os freqüentadores da chic Rua do Ouvidor nunca teriam ouvido falar, se não fosse o gênio de Euclydes, aqui, fotografado numa das famosas ruas cariocas, do início do século.


Os Sertões, cujos estudos mais profundos estavam sendo feitos pelo professor da USP Roberto Ventura, prematuramente morto em um acidente de trânsito, coincidentemente um dia antes da data da morte do prórpio Euclydes, quase cem anos depois, estão publicados na obra Retrato interrompido da vida de Euclydes da Cunha, pela Companhia das Letras, 2003. É uma leitura obrigatória para todo o brasileiro. Para Alfredo Bosi, seu maior talento fora conjugar a ciência com a paixão. De fato, a linguagem deste livro é arrebatadora e nos emociona, não somente enquanto brasileiros, mas também na qualidade de seres humanos.
Na divisão que realiza para tentar mostrar á elite que dominava a escrita e
a leitura que Canudos não tinha sido uma guerra entre um bando de fanáticos monarquistas, que seguiam um líder de nome Antônio Conselheiro. Muito mais do que isso, tratava-se, no entender de Euclydes, do homicídio odioso de excluídos de toda aquela atmosfera que procurava dar ao Rio de Janeiro (metonímia do Brasil) um ar de civilização, no sentido pior do termo, porque contraposto á barbárie.
Ainda que permaneça fiel aos postulados cientificistas de divisão de raças, Os Sertões inova por valorizar o mestiço de Canudos que luta até o final, para defender a sua sociedade alternativa, na qual as riquezas eram divididas entre os que chegavam, sendo auxiliados nas construções dos seus casebres. Abaixo, a primeira edição de Os Sertões:


Como diria Glauber Rocha, fica até difícil falar do que está magistralmete descrito por Euclydes. Ele afirma que a própria geografia parecia ser cúmplice da história em esconder aquela população e a covardia sangrenta que lhe aconteceria, segundo o autor, por pura impunidade, já que a história não iria ali. Isso é de uma atualidade, não? As páginas sem brilho desta obra que ele escreveu a mão, em uma velha casa à beira do rio, fariam parte do livro vingador daquela população analfabeta, caso único na história do Brasil, pois que não se renderam, e nem davam um viva à República, mesmo sabendo que suas cabeças não seriam decepadas caso o fizessem.
Como disse Luís Carlos Prestes: O brasileiro, quando confia na liderança, é capaz dos atos mais renunciativos e corajosos do mundo. A foto ilustra os sobreviventes do Arraial de Canudos, que teve mais de 20.000 morto na quarta e derradeira batalha travada nos anos de 1896/1897. Os remanescentes de Canudos foram trazidos para o Morro da Providência, rebatizado como favela por nele ter sido encontrada uma planta, de nome favela, existente em Canudos.

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