E lá se vai mais um semestre acadêmico!
Neste, trabalhei duas disciplinas (Literatura Brasileira III e Literatura Contemporãnea), nas quais procurei desenvolver, como é de praxe no meu trabalho, além da consciência crítica dos discentes, uma reflexão acerca das questões éstéticas permeadas pelas históricas.
No programa de Brasileira, ressaltei elementos étnicos que compuseram a trajetória dos pré e dos modernistas. No último post criado aqui, Macunaíma sintetizou bem este desejo, ao assinalar a matriz de formação brasileira ; índia, européia e africana.
Um destaque do curso também foi a atenção que lancei à geração de 30, erroneamente classificada por aí como nordestina. Além de estudarmos os romances de Graciliano Ramos (debatemos Vidas Secas)e José Lins do Rego, entre outros autores, não deixei de fazer menção à prosa sulista de Érico Veríssimo, ou aínda as desenvolvidas na região Sudeste, com Lúcio Cardoso e Marques Rebelo.
A geração de 45, com as apreciações das obras de Clarice Lispector (lemos o primeiro romance dela, Perto do coração selvagem), Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto fechou os trabalhos com chave de ouro. Apesar das dificuldades que todos nós enfrentamos, alunos que são também trabalhadores e que custeam seus estudos, além de outros que atingem diretamente a nós docentes, como a extinção do Curso de Letras no Campus Nova América da Universidade Estácio de Sá, demos o exemplo, trabalho dedicado, honesto, que rema contra a maré.
Já a Literatura Contemporânea dividi em décadas e temáticas, frisando nos anos 50 o Concretismo, nos 60, o Tropicalismo, em 70, a Poesia de Mimeógrafo, em 80, o Memorialismo e o conto e em 90. a literatura de gênero. Lemos grandes obras, como Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva; Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu; Inferno, de Patrícia Mello; além de poemas esparsos.
As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, que viraram disicplina on line, (fui a conteudista das dez aulas que estão disponíveis para os alunos virtuais), nunca saíram do meu coração. E embora eu não escreva tanto a respeito por aqui (abordo mais os conteúdos curriculares das turmas presenciais que possuo), estou sempre antenada com as novas que saem por aí a respeito dos autores africanos. Duas ótimas notícias foram o Prêmio Camões a Arménio Vieira, um dos meus poetas cabo-verdianos preferidos de sempre. Outra boa foram os eventos organizados nos SESCS cariocas sobre a cultura afro-brasileira, com peças de Cabo Verde, Moçambique, encontros e mais encontros especiais.
Como quem planta flor, não colhe mato, meu querido aluno e amigo Ricardo Riso tomou gosto pela matéria ao ser meu aluno no Campus Nova América, lá mesmo, onde extinguiram Letras. E perambula por aí, me representando. Que orgulho dele! Até orelha de livro ele escrfeve agora, é um exemplo para seus colegas que também têm uma vida de cão, mas que ao invés de chorar, coloca a mão na massa. É isso aí, Irmão. Quem quiser ficar por dentro do que rola nestas esferas, é só ir ao blog dele, que tem o nome poético como a alma de Riso: Sonhos não envelhecem.
http://ricardoriso.blogspot.com/
Ao Ricardo, dedico este poema de Drummond, ele é que uma flor agreste do meu jardim literário;
A Flor e A Náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.