Literaturas & Linguagens artísticas

Este blog tem por objetivo dialogar com as disciplinas ministradas por mim na Faculdade de Letras da UNESA, na qual trabalho, bem como o de difundir os diálogos entre as culturas brasileira e africana.

20

de
novembro

"Vem menininha pra dançar o Caxambu (…) Anastácia não se deixou escravizar (…) Tem a força da cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos
seus rituais"  (KIZOMBA, FESTA DA RAÇA - Jonas/Rodolpho/Luiz Carlos da Vila)

Hoje é feriado municipal no Rio de Janeiro, em homenagem a Zumbi. Um dia  que, além de comemorado,  também precisar ser objeto de reflexão. Não se trata apenas de pensarmos na Consciência Negra, mas de irmos além do adjetivo: Zumbi simboliza os que sofrem discriminação, seja essa contra etnia,  classe,  credo, gênero ou orientação sexual. A data, assim, estabelece um diálogo com  lutas contra a intolerância, e a discriminação de toda ordem.

Em toda a cidade do Rio de Janeiro, houve ações a respeito do dia da Consciência Negra, mas destaco o evento da Praça XV, centro, que contou com a presença do Presidente Lula, entre outras personalidades políticas e culturais. Menciono isso, pelo fato de hoje lá ter sido inaugurada a estátua de João Cândido, o Almirante Negro - imortalizado na canção composta por João Bosco e Aldir Blanc. Cândido liderou o Revolta da Chibata, em 1910, que questionava os castigos físicos aos quais os marinheiros (na sua maioria, negros) ainda eram submetidos, mesmo depois da Abolição. O movimento foi vitorioso, tendo os castigos sido abolidos, mas seus líderes, perseguidos. Jão foi expulso da Marinha, internado num manicômio e precisou trabalhar, até os 89 anos, descarregando peixes no mercado da Praça XV. Por isso, a homenagem a este brasileiro foi muita justa, embora vá de encontro à belíssima verdade existente na poesia da letra de Bosco: "Salve o Almirante Negro!/Que tem por monumento/As pedras pisadas no cais", pois que, muitos dos verdadeiros heróis brasileiros não terem estátua…

Assisti ao pronunciamento do Presidente na ocasião… ele, também, não precisava falar que muita coisa tinha mudado na América Latina, em termos de eleição, tendo sido eleitos um operário no Brasil (ele), um índio na Bolívia (Morales) e, claro, um negro nos EUA |(Obama). Não entendi o enredo do samba… bastaria falar de João Cândido e dos heróis esqiuecidos do Brasil. Mas… apreciei a homenagem justa a João Cândido.

Aproveito para mencionar os e-mails, comentários orkutianos e os carinhosamente deixados aqui no blog. Alguns ex-alunos e sempre amigos marcam presença. Outros dizem que me acharam por intermédio das ferramentas de busca (cadê/google), pois de vez em quando sou procurada por pessoas de outros estados que leram meus artigos e entrevistas em publicações virtuais  (como no Rede de Letras), ou em outros meios, e acabam parando aqui. Esta é, sem dúvida, uma grande benção da tecnologia interneteira, nos aproximar de almas tão queridas que a distância geográfica não permitiria. Muitíssimo obrigada.

Apesar das facilidades cibernéticas, embora muito se tenha avançado nesse sentido em termos de divulgação das literaturas africanas em sites e blogs competententes, os novos pesquisadores não encontram com facilidade na rede um percurso destas literaturas, da sua origem aos dias atuais. Se deslocarmos a questão do virtual para o "real",  embora as publicações na área estejam muito mais generosas, em termos de editoras brasileiras, elas se concentram na divulgação dos autores e não da crítica, restrita, ainda, aos círculos acadêmicos.

Faltam, ainda na realidade das estantes das livrarias brasileiras, os famosos manuais do passo a passo, para os  já publicados pelas editoras portuguesas, que aqui têm o peso do euro, fator complicador para os que desejam adquirir seus exemplares. Na década de 80, a Ática nos brindou com o Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, do amado professor Manuel Ferreira, porém, só houve uma edição da obra. Também publicou da saudosa professora da USP Maria Aparecida Santilli, o Estórias africanas: história e antologia. Quando os novos interessdos em Africanas me interpelam para saber onde podem ler sobre a orgem e evolução destas Literaturas, só tenho a recomendar estas obras esgotadas no Brasil, além dos livros de Pires Laranjeira, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, publicada pela Porto, de Portugal e o de Alfredo Margarido, Estudo sobre literaturas de nações africanas, por A Regra do Jogo, portanto, a peso de ouro, quero dizer, de euro.

Paulatinamente, neste espaço, tentarei minimizar esta dificuldade dos novos pesquisadores, com posts sobre este percuso, e sobre o ensino destas literaturas. Um beijo carinhoso, volto com as novidades do Seminário da USP.

"ôô, nega mina… Anstácia não se deixou escravizar!!!"

18

de
novembro

Aos alunos, com carinho

Quando em 2002 implementei o ensino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade particular na qual trabalho até hoje, sonhava, mas não imaginava, que a disciplina faria tanto sucesso com os discentes

Sonhava porque me dediquei muito para que estas Literaturas se tornassem realidade na Estácio de Sá desde 2000. Com o apoio da Professora Maria Francisca, depois de dois anos, consegui concretizar o desejo. E, passados oitos anos, apesar das modificações as quais a matéria foi submetida - agora ela virou uma disciplina  não de modo presencial, mas sim on line - modificações estas que me fizeram deixar de ensiná-las (o que ocorreu de 2002-2007),  observo com alegria que o fogo da paixão por parte dos alunos não morreu.

Ainda sou procurada para orientar monografias de final de curso sobre o tema. Mais de 50 trabalhos já foram defendidos na área sob minha orientação, e atualmente duas alunas pesquisam o assunto. Se quiserem se inteirar destes trabalhos, é só irem ao meu Currículo Lattes, na página do CNPq.  É, Africanas, você agoniza, mas não morre. Perceber que das cinzas ainda se desenha um coração…

Aproveito para lembrar que estarei no I Seminário Contra-vento - pedra a pedra, a se realizar na USP, a se realizar nos próximos dias 25 a 28 de novembro:

Minha fala será na mesa redonda abaixo:

Debate com Margarida Fontes e Mito
- Mesa de Debates: Fabiana Buitor Carelli Marquezini (USP), Maurício Salles de Vasconcelos (USP) e Norma Lima (UniEstácio)

Abraços!

7

de
novembro

OFICINAS DE ÁFRICA

Tenho realizado Oficinas sobre as nossas amadas Literaturas Africanas na Universidade em que trabalho. No último dia 1/11, e ontem, 6/11, tive o prazer de conhecer novas pessoas interessadas nestas prduções, de  ver  alunos e de rever ex -alunos.  Este carinho discente é o que nos anima, não é mesmo?

Na Oficina do dia 1/11, tive a oportunidade de debater o livro Mayombe, de Pepetela, leitura indicada como obrigatória para o exame ENADE, que avalia os alunos universitários do primeiro e do último períodos. Não posso negar que se trata de um dos meus autores preferidos, creio mesmo (e sempre digo isso aos alunos) que basta a leitura das obras pepetelenses para que nos inteiramos da história africana, desenhada na sua literatura, em livros como A Geração da Utopia, Jaime Bunda, e outros.

Pepetela, que assim se rebatizou desfazendo o batismo de sangue colonizador que modificou os nomes africanos para europeus (De Artur Pestana a Pepetela, versão de Pestana para uma língua nacional angolana) traz, nas suas produções, as dicções da ficção e da história, apontando assim para uma construção da própria história africana, oficialmente apagada ou contada de modo avesso pelo colonizador, do ponto de vista eurocêntrico.

O autor mesmo afirmou, em entrevista a Laban, que ao buscar fontes históricas para as lendas africanas, não as encontraria. Sabemos que a cultura de Angola, Cabo Verde. Guiné Bissau. Moçambique e São Tomé e Príncipe (as cinco nações africanas que falam português, além das línguas nacionais) é de base oral, e que ela se expressará  em língua escrita portuguesa somente a partir do século XIX, quando os africanos aprenderão o português. Assim, a riqueza da cultura africana, outrora oral, vai se espalhando pelo texto de língua portuguesa, a língua do colonizador, mas também a devorada, a qual irá, com as décadas, incorporando mais e mais temas e palavras de identidade africana.

O encontro de ontem versou sobre a Lei implementada para o ensino da cultura afro brasileira nas escolas. Fizemos uma reflexão sobre os caminhos e descaminhos dela, após cinco anos, bem como um exame da complementação a ela, que assegura também o ensino da cultura indígena.

Embora tenhamos tido muito esforço de alguns, não vimos, efetivamente, nenhuma mudança na grade curricular das escolas, nem nas práticas escolares, como um todo. Isso é lamentável. Nesses encontros, sempre levo sugestões de livros a serem trabalhados pelos alunos, alguns já professores ou futuros mestres, a fim de que minimizemos o preconceito com as diferenças, seja de cor, de credo, de opção sexual, naturalidade, classe social ou outras. Nada de preconceitos, vivamos em harmonia com as diferenças.

 

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