9
de
março
Euclydes da Cunha, marcas étnicas em Os Sertões
A disciplina de Literatura Brasileira III, ministrada na Faculdade de Letras da Universidade em que trabalho, tem como centro o estudo das três gerações modernistas brasileiras. Obviamente que, em todos esses anos em que sou responsável por este conteúdo da grade, nos Campi Méier e Nova América, os antecendentes são trazidos para uma maior compreensão, da parte do discente, de como o Modernismo foi muito além de uma questão estética, situando-se, principalmente, como proposta política de condução, não só do modo de vida nacional, mas como o de outras sociedades de base colonizatória.
Muito acertada (e com justiça) me deram esta disciplina, já que o Modernismo sempre esteve no foco dos meus estudos acadêmicos, tendo eu defendido uma dissertação de mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 1993, sobre a crônica e o romance modernistas de Patrícia Galvão (ou Pagu). Além do que, dialoguei tal pesquisa com as literaturas africanas de língua portuguesa por ocasião dos meus estudos de Doutorado, na Universidade Federal Fluminense, como já detalhei aqui.
Iniciei o curso sobre Modernismo a partir das idéias teóricas que Luiz Roberto Lopez defendeu no livro Cultura Brasileira, de 1808 ao Pré-Modernismo. Era leitura do curso de Cultura Brasileira com o qual trabalhei por três anos no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como professora contratada. O capítulo em questão Reflexões sobre o homem brasileiro: cientificismo, racismo, fatalismo, eurocentrismo, aborda com muita propriedade os vínculos do século XIX com os discursos racistas motivados por uma estranha aliança entre a ciência e a intolerância, por conta da difusão do Positivismo.
É fundamental que esse triste capítulo da nossa cultura seja muito bem conhecido para que o aluno consiga perceber de que maneira os autores da chamada fase Pré-Modernista, vão se deslocando destes modelos que acreditam existirem raças superiores e inferiores, cujos divulgadores, no Brasil, adotaram as postulações de Gobineau, adaptando-as às questões nacionais. Assim, por exemplo, Sílvio Romero trará a idéia de que a saída para o Brasil seria ele se tornar branco, de forma gradativa, haja vista a grande quantidade de africanos, herança do tráfico. Nascia o deformado conceito de que era necessário clarear as famílias, coisas que, infelizmente, ouvimos até hoje por aí…
Euclydes da Cunha, Augusto dos Anjos e Lima Barreto trouxeram, em suas obras, evidências destas construções positivistas, das quais estiveram terrivelmente próximos. Não há como, neste momento, deixar de enlaçar suas produções literárias a traços biográficos. Como dissociar Euclydes da sua crença na revolução que a Proclamação da República não foi? Não esqueçamos de que fora o Exército que resolvera dar um golpe na Monarquia que, disfarçadamente, ainda existia por aqui na presença de Dom Pedro I e, posteriormente, na de Dom Pedro II, este, brasileiro e, de fato, bem adaptado aos Trópicos. O marechal Deodoro da Fonseca, ao nos tornar republicanos, bordou na bandeira brasileira um lema positivista Ordem e Progresso. O que seria desordem e retrocesso? Uma revolta como a contrária não à vacina, mas ao despejo de centenas de família que teriam que sair do centro do Rio, uma república moderna, que queria ser siamesa de Paris? Uma rebelião como a de Canudos, no obscuro Nordeste, que os freqüentadores da chic Rua do Ouvidor nunca teriam ouvido falar, se não fosse o gênio de Euclydes, aqui, fotografado numa das famosas ruas cariocas, do início do século.

Os Sertões, cujos estudos mais profundos estavam sendo feitos pelo professor da USP Roberto Ventura, prematuramente morto em um acidente de trânsito, coincidentemente um dia antes da data da morte do prórpio Euclydes, quase cem anos depois, estão publicados na obra Retrato interrompido da vida de Euclydes da Cunha, pela Companhia das Letras, 2003. É uma leitura obrigatória para todo o brasileiro. Para Alfredo Bosi, seu maior talento fora conjugar a ciência com a paixão. De fato, a linguagem deste livro é arrebatadora e nos emociona, não somente enquanto brasileiros, mas também na qualidade de seres humanos.
Na divisão que realiza para tentar mostrar á elite que dominava a escrita e a leitura que Canudos não tinha sido uma guerra entre um bando de fanáticos monarquistas, que seguiam um líder de nome Antônio Conselheiro. Muito mais do que isso, tratava-se, no entender de Euclydes, do homicídio odioso de excluídos de toda aquela atmosfera que procurava dar ao Rio de Janeiro (metonímia do Brasil) um ar de civilização, no sentido pior do termo, porque contraposto á barbárie.
Ainda que permaneça fiel aos postulados cientificistas de divisão de raças, Os Sertões inova por valorizar o mestiço de Canudos que luta até o final, para defender a sua sociedade alternativa, na qual as riquezas eram divididas entre os que chegavam, sendo auxiliados nas construções dos seus casebres. Abaixo, a primeira edição de Os Sertões:

Como diria Glauber Rocha, fica até difícil falar do que está magistralmete descrito por Euclydes. Ele afirma que a própria geografia parecia ser cúmplice da história em esconder aquela população e a covardia sangrenta que lhe aconteceria, segundo o autor, por pura impunidade, já que a história não iria ali. Isso é de uma atualidade, não? As páginas sem brilho desta obra que ele escreveu a mão, em uma velha casa à beira do rio, fariam parte do livro vingador daquela população analfabeta, caso único na história do Brasil, pois que não se renderam, e nem davam um viva à República, mesmo sabendo que suas cabeças não seriam decepadas caso o fizessem.
Como disse Luís Carlos Prestes: O brasileiro, quando confia na liderança, é capaz dos atos mais renunciativos e corajosos do mundo. A foto ilustra os sobreviventes do Arraial de Canudos, que teve mais de 20.000 morto na quarta e derradeira batalha travada nos anos de 1896/1897. Os remanescentes de Canudos foram trazidos para o Morro da Providência, rebatizado como favela por nele ter sido encontrada uma planta, de nome favela, existente em Canudos.


