Literaturas & Linguagens artísticas

Este blog tem por objetivo dialogar com as disciplinas ministradas por mim na Faculdade de Letras da UNESA, na qual trabalho, bem como o de difundir os diálogos entre as culturas brasileira e africana.

18

de
abril

Augusto dos Anjos, o punk do início do século

É curioso observar como alguns dos autores da chamada fase Pré-Modernista, a saber Euckydes da Cunha, Augusto dos Anjos e Lima Barreto, vão se afastando, cada um no seu contexto e a seu modo, do intragável Positivismo de Comte, tropicalizado entre nós por Oliveira Lima, Sílvio Romero, Manoel Bonfim e outros, este vai, curiosamente, se dissolvendo na medida em que a produção literária daquela geração se aproxima do que se convencionou chamar de Modernismo Brasileiro. Sim, porque, Euclydes, Augusto e Lima também foram vanguarda.

Vejamos a poesia de Augusto dos Anjos: publicada em único volume e obra, denominada EU, é o próprio retrato do plural, embora traga a marca da primeira pessoa do singular. De que pluralidade falamos? Da invisível dos centros elegantes da antiga capital republicana, que imitava  os costumes europeus, sem resolver a injustiças sociais que se arrastavam há longa data.

Os versos augustianos não têm nada de augustos, são ousados e riscam os salões dos saraus, nos quais a literatura era vista como sorriso da sociedade. Sorriso que se mostra cariado pelas feridas, pus e morcegos que a lírica de Augusto dos Anjos trazem, evidenciando a periferia, os sem lugar, os do espaço da exclusão.

"Mas vos não lamenteis, magras mulheres,
Nos ardores danados da febre hética,
Consagrando vossa última fonética
A uma recitação de misereres. " (Os Doentes)

A recitação de misereres nos salões parnasianos era mesmo uma afronta. Ao poeta, muito menos, impressionavam os discursos histéricos da exaltação do progresso, da máquina, tudo vendido pela Revolução Industrial, também ela fruto do capitalismo e do racionalismo que elegia a máquina como um deus.

"O enterro de minha última neurona
Desfila… E eis-me outro fósforo a riscar
E esse acidente químico vulgar
Extraordinariamente me impressiona!

Mas minha crise artrítica não tarda.
Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,
Na abjecção embriológica da vida
O futuro de cinza que me aguarda!" (Mistérios de um fósforo)

Sim um urubu pousara na sorte dele (Budismo moderno)! Por isso, nos aconselhava a nos acostumar à solidão, já que ninguém assistira ao enterro da nossa última quimera…  (Versos íntimos). Por essas e por outras, exaltando as etnias marginalizadas daquele momento (como o negro e o índio), porue consideradas sub-raças pelo discurso racista legitimado pelo Positivismo, que nas aulas de Literatura Brasileira III que dou nos campi Méier e Nova América, chegamos à conclusão de que Augusto dos Anjos era punk. Como ler seus poemas e não nos lembrarmos da canção Punk da Periferia? Abrãços!

Punk Da Periferia
Gilberto Gil
Composição: Gilberto Gil

Das feridas
Que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto
Restaria aos urubus
Pus por isso mesmo
Este blusão carniça
Fiz no rosto
Este make-up pó caliça
Quis trazer assim
Nossa desgraça à luz…

(…)

Esgotados
Os poderes da ciência
Esgotada
Toda a nossa paciência
Eis que esta cidade
É um esgoto só…

 

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