Literaturas & Linguagens artísticas

Este blog tem por objetivo dialogar com as disciplinas ministradas por mim na Faculdade de Letras da UNESA, na qual trabalho, bem como o de difundir os diálogos entre as culturas brasileira e africana.

28

de
maio

Memórias sentimentais de João Miramar

Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, é o primeiro cadinho da prosa moderna brasileira, no entender do grande poeta e justiceiro Haroldo de Campos.

Justiceiro por quê? Porque ele e Antônio Cândido ajudaram, ainda na década de 50, após a lamentável morte de Oswald, ao resgate da obra do autor, considerada "menor", provavelmente por seu lado militante e humorístico. Autores com preocupação social no Brasil, são logo rotulados como panfletários. Autores que incorporam o humor em seus trabalhos, são diminuídos, pois que a "seriedade" acadêmica não pode ser contaminada pelo humor.

Inflexibilidade no tratamento dos "gêneros", como se eles não fossem híbridos… Épico, Lírico, Dramático… a Comédia desassistida e Gil Vicente só botando pra quebrar na Idade Média…

O livro de Oswald, Memórias sentimentais, não é para leitor acomodado. Exige de nós que entendamos aqueles fragmentos como flashs,  um kodakar, como bem ilustrou sempre brilhantemente Antônio Cândido. O livro não tem capítulos. Não quer nos adular, como também não desejou fazê-lo com o leitor daquela época. Para aquele, inclusive, Oswald pregou uma peça: inventou um personagem, construído dentro do esquema academicista, de tudo que ele e sua obra sempre negaram (o país dos doutos que não resolve suas mazelas sociais). Assim é que Machado Penumbra apresenta o livro que mostra as memórias de um burguês cuja história pouco nos interessa. Esse paradoxo é muito interessante. Aquele que escreve suas memórias entende que, com elas, deixa um testemunho para outros. Não é o caso de Miramar, que nem sequer as conclui. O que ele deseja é fazer desfilar diante de nós a sua existência entre boullevards, cafés, grêmios recreativos, viagens, polvilhados aqui e ali com dramas como o da crack da bolsa, de 1929, exemplificado neste magistral poema incluído em um dos fragmentos da obra:

Verbo crackar

Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa.
Sê pirata
Sede trouxas
Abrindo o pala
Pessoal sarado

Oxalá eu tivesse sabido
Que esse verbo era irregular

Embora classificado como memórias, Miramar não se insere neste gênero. O livro abre para uma riqueza tipológica nunca vista antes na Literatura Brasileira: é romance, narrativa epistolar, entrevista, poema, tudo ao mesmo tempo e mais alguma coisa. 

Recuperado nos anos 60 pelos tropicalistas, encenado pelo Teatro Oficina, Oswald de Andrade estava à frente do seu tempo? Não, gênios nunca estão à frente e sim antenados com a sua época. Alguns contemporâneos dele é que estavam atrasados no tempo.

22

de
maio

Modernismo Brasileiro - parte 1

1917, São Paulo. Anita Malfatti, pintora paulista, chegada da Europa, local em que tomou contato com as vanguardas que lá vinham se desenvolvendo desde o século XIX, resolveu pôr em prática, em uma exposição, as novas idéias. A idéia lhe valeu um artigo desaforado de Monteiro Lobato - "Paranóia ou mistificação? - e serviu como origem da Semana de Arte Moderna, que se desenvolveria cinco anos mais tarde, em fevereiro, no Teatro Municipal paulista.


Isto porque, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros, que também estavam sintonizados com o sopro do novo que se fazia necessário chegar ao Brasil parnasiano, da República Velha e do academicismo dos boullevards inspirados na França, não mediram esforços para, em algumas noites que reuniram manifestações variadas como a da escultura (Vitor Brecheret), da música (Villa Lobos), da pintura (Tarsila do Amaral), poesia (Mário de Andrade) entre outros, que o Brasil fizesse parte do que já estava acontecendo: a renovação.


Sou suspeita para falar do Modernismo. Me defino como Modernista e Tropicalista , porque sabemos muito bem que o Modernismo serviu de fonte para as estéticas que se seguiram a ele a partir da década de 50 (Concretismo, Tropicalismo, Poesia de 70…)

Mais do que tudo, as idéias modernistas não foram somente extensivas à produção artística, mas também reivindicativas da transformação social e política necessária ao país.


Sou suspeita e estudiosa do tema desde meu Mestrado cursado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no período de 1990-1993, quando defendi dissertação sobre Patrícia Galvão, a nossa Pagu; quando continuei esta pesquisa enfocando a recepção modernista em Cabo Verde, a partir da década de 30, em Doutorado concluído da Universidade Federal Fluminense, entre 1994-2000. Suspeitíssima na minha paixão por Oswald de Andrade, no meu respeito a ele e a todos que pensaram este país e tentaram melhorá-lo, um dia (e ainda aos que tentam…)


Sabemos que as Vanguardas Européias traziam a constestação às idéias racionalistas que enfocavam o mundo com suas próprias lentes. Assim é que Baudelaire propõe que o artista deixe o claustro para enfrentar a dura realidade das galerias capitalistas de uma Revolução Industrial que venceu, mas que não vai derrotar a sensibilidade. É por isso que conclama que o poeta seja um voyeur, que se misture às ruas sem ser, por elas, devorado. Teremos, igualmente, Mallarmé nos ensinando a ler também os espaços em branco de uma página, não somente as letras, ensinando nosso olhar a deslizar pelo vazio e nele compreender significações. Ler o silêncio. Encontraremos, igualmente, uma humanidade cansada do poder racionalista que criou, inventou, superestimou a máquina e esqueceu das aspirações humanistas. A civilização que não conseguiu minimizar as diferenças sociais e desembocou numa Primeira Guerra Mundial, de disputa do velho poder. Por isso, o retorno ao primitivismo, à arte africana, da nossa mãe África, nossa origem.


O Brasil das primeiras décadas, de nacionalismo vindo do Romantismo de natureza ufanista, precisava "repaginar" sua identidade. Depois do Positivismo e de suas classificações preconceituosas sobre raças inferiores e superiores, o índio, antes idealizado na esfera de Rousseau no século XVIII como "bom selvagem", elevado a tema romântico (indianismo) com valores clássicos de José de Alencar e Gonçalves Dias assume um papel depreciativo de "raça inferior", como o negro e o próprio português. O Brasil se vê, desta forma, lido em sua matriz como nação inferior, fadada ao fracasso pela sua mistura étnica, precisando "clarear", como desejou Sílvio Romero.


É fundamental, assim, que Anita Malfatti, em 1917, tenha trazido uma visão expressionsta do mundo, pois era preciso que uma certa subjetividade enfocasse uma pretensa realidade preconceituosa e interessante (como sempre) para a elite branca e "pura", defensora da ideologia capitalista.
Entender a pintura de Anita, de Tarsila do Amaral, de Portinari, a literatura de Oswald, de Mário é ser brasileiro, é homenagear uma proposta de inserir o homem brasileiro na cena. Voltarei ao apaixonante assunto!

Erro de Português - Oswald de Andrade

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

14

de
maio

Lima Barreto, escritor mulato

Afonso Henriques da Lima Barreto trazia uma marca peculiar: era mulato. É interessante notar, embora a biografia associada à produção literária ainda eriçe os cabelos de muitos estudiosos, a escassez de autores negros na Literatura Brasileira, bem como o de autorAs. Na verdade, a segunda afirmação não confere, pois que autoras sempre existiram, mas não tiveram suas obras divulgadas como mereciam. Sempre digo para meus alunos da Faculdade de Letras que são sempre as mesmas as estudadas: uma Florbela, uma Cecília, uma Clarice… e olhe lá. E recomendo que se interem dessa produção o quanto antes, começando pelo excelente trabalho feito por Nelly Novaes Coelho em Dicionário crítico das escritoras brasileiras, publicado em 2001 pela editora Escrituras.

À primeira afirmação, acrescentemos: escritores e escritoras negras foram mesmo raros em nosso país, de população negra majoritária. Razões históricas explicam essa lcuna, não provocada por falta de talentos e sim por falta de oportunidade.
Vejamos… nas Letras tivemos Gregório, o Boca de Inferno, mulato; Machado de Assis, mulato; Cruz e Souza, negro; Lima Barreto, mulato. Todos pagaram esse estigma, sem dúvida nenhuma, alguns apontando mais evidências disso em suas obras, outros, menos.
Não há como apreciar Lima sem a observação desta sua condição étnica, exteriorizada em seus romances e contos. Aliás, a obra dele aponta para os excluídos, os à margem, os descentrados, pobres, humildes, explorados… por isso o escritor adota a linguagem coloquial em seu texto, sendo acusado de escrever mal, mas faz isso com a intenção de aproximar a literatura da fala do povo - esse excluído dos finos salões em que a cultura erudita sempre cismou em prender a arte literária.
Por essa estratégia lingüística e pelo tratamento que dá à sua matéria literária, ele pode ser considerado um modernista. No ano em que a Semana de Arte Moderna aconteceu, segundo matéria publicada na revista Cult, Sérgio Buarque de Holanda, com uma Klaxon oswaldiana na mão, vai até à livraria da Rua do Ouvidor na qual Lima dormia, após mais um porre, para convidá-lo a participar da SAM. Os modernistas eram admiradores da sua obra, mas Lima, já adoentado por conta do alcoolismo que viria a matá-lo em alguns meses, e irritado pelo nome inglês da publicação (klaxon=buzina) declina do convite e segue para o bar, sendo seguido pelo inconsolável Buarque de Holanda. No botequim, já de manhã, no meio dos que já se encontravam bêbados, ele era um rei. E não só lá!
No curso, lemos Triste fim de Policarpo Quaresma, além de termos falado de outras obras do autor. Recomendo que assistam ao filme, com Paulo José, como comparação interessante.
Abraços e comentem, alunos e possíveis leitores. Não sejam tímidos!

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