14
de
maio
Lima Barreto, escritor mulato

Afonso Henriques da Lima Barreto trazia uma marca peculiar: era mulato. É interessante notar, embora a biografia associada à produção literária ainda eriçe os cabelos de muitos estudiosos, a escassez de autores negros na Literatura Brasileira, bem como o de autorAs. Na verdade, a segunda afirmação não confere, pois que autoras sempre existiram, mas não tiveram suas obras divulgadas como mereciam. Sempre digo para meus alunos da Faculdade de Letras que são sempre as mesmas as estudadas: uma Florbela, uma Cecília, uma Clarice… e olhe lá. E recomendo que se interem dessa produção o quanto antes, começando pelo excelente trabalho feito por Nelly Novaes Coelho em Dicionário crítico das escritoras brasileiras, publicado em 2001 pela editora Escrituras.

À primeira afirmação, acrescentemos: escritores e escritoras negras foram mesmo raros em nosso país, de população negra majoritária. Razões históricas explicam essa lcuna, não provocada por falta de talentos e sim por falta de oportunidade.
Vejamos… nas Letras tivemos Gregório, o Boca de Inferno, mulato; Machado de Assis, mulato; Cruz e Souza, negro; Lima Barreto, mulato. Todos pagaram esse estigma, sem dúvida nenhuma, alguns apontando mais evidências disso em suas obras, outros, menos.
Não há como apreciar Lima sem a observação desta sua condição étnica, exteriorizada em seus romances e contos. Aliás, a obra dele aponta para os excluídos, os à margem, os descentrados, pobres, humildes, explorados… por isso o escritor adota a linguagem coloquial em seu texto, sendo acusado de escrever mal, mas faz isso com a intenção de aproximar a literatura da fala do povo - esse excluído dos finos salões em que a cultura erudita sempre cismou em prender a arte literária.
Por essa estratégia lingüística e pelo tratamento que dá à sua matéria literária, ele pode ser considerado um modernista. No ano em que a Semana de Arte Moderna aconteceu, segundo matéria publicada na revista Cult, Sérgio Buarque de Holanda, com uma Klaxon oswaldiana na mão, vai até à livraria da Rua do Ouvidor na qual Lima dormia, após mais um porre, para convidá-lo a participar da SAM. Os modernistas eram admiradores da sua obra, mas Lima, já adoentado por conta do alcoolismo que viria a matá-lo em alguns meses, e irritado pelo nome inglês da publicação (klaxon=buzina) declina do convite e segue para o bar, sendo seguido pelo inconsolável Buarque de Holanda. No botequim, já de manhã, no meio dos que já se encontravam bêbados, ele era um rei. E não só lá!
No curso, lemos Triste fim de Policarpo Quaresma, além de termos falado de outras obras do autor. Recomendo que assistam ao filme, com Paulo José, como comparação interessante.
Abraços e comentem, alunos e possíveis leitores. Não sejam tímidos!


Comentário por Amanda — sexta-feira, 15 de maio de 2009 (10:49:53)
“Sempre digo para meus alunos da Faculdade de Letras que são sempre as mesmas as estudadas: uma Florbela, uma CecÃlia, uma Clarice… e olhe lá.”
De todo o texto, foi o que mais me chamou a atenção. E mais, é uma verdade não só nas Faculdade de Letras. São essas as sempre cultuadas por todos aqueles que começam a enveredar pelo delicioso caminho das letras.
Todas absurdamente boas, é verdade (eu te amo, Clarice), mas é realmente triste que a maioria dos leitores desconheça os grandes nomes da nossa literatura.
E não só da nossa, né? Peça alguns nomes fora da lÃngua portuguesa e eu sou capaz de apostar alto que poucos se arricarão além de Dostoiévski, Poe e Shakespeare.
Primeira vez que passo aqui (vergonha!), mas agora vou voltar mais vezes.
Beijo!