Literaturas & Linguagens artísticas

Este blog tem por objetivo dialogar com as disciplinas ministradas por mim na Faculdade de Letras da UNESA, na qual trabalho, bem como o de difundir os diálogos entre as culturas brasileira e africana.

22

de
maio

Modernismo Brasileiro - parte 1

1917, São Paulo. Anita Malfatti, pintora paulista, chegada da Europa, local em que tomou contato com as vanguardas que lá vinham se desenvolvendo desde o século XIX, resolveu pôr em prática, em uma exposição, as novas idéias. A idéia lhe valeu um artigo desaforado de Monteiro Lobato - "Paranóia ou mistificação? - e serviu como origem da Semana de Arte Moderna, que se desenvolveria cinco anos mais tarde, em fevereiro, no Teatro Municipal paulista.


Isto porque, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros, que também estavam sintonizados com o sopro do novo que se fazia necessário chegar ao Brasil parnasiano, da República Velha e do academicismo dos boullevards inspirados na França, não mediram esforços para, em algumas noites que reuniram manifestações variadas como a da escultura (Vitor Brecheret), da música (Villa Lobos), da pintura (Tarsila do Amaral), poesia (Mário de Andrade) entre outros, que o Brasil fizesse parte do que já estava acontecendo: a renovação.


Sou suspeita para falar do Modernismo. Me defino como Modernista e Tropicalista , porque sabemos muito bem que o Modernismo serviu de fonte para as estéticas que se seguiram a ele a partir da década de 50 (Concretismo, Tropicalismo, Poesia de 70…)

Mais do que tudo, as idéias modernistas não foram somente extensivas à produção artística, mas também reivindicativas da transformação social e política necessária ao país.


Sou suspeita e estudiosa do tema desde meu Mestrado cursado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no período de 1990-1993, quando defendi dissertação sobre Patrícia Galvão, a nossa Pagu; quando continuei esta pesquisa enfocando a recepção modernista em Cabo Verde, a partir da década de 30, em Doutorado concluído da Universidade Federal Fluminense, entre 1994-2000. Suspeitíssima na minha paixão por Oswald de Andrade, no meu respeito a ele e a todos que pensaram este país e tentaram melhorá-lo, um dia (e ainda aos que tentam…)


Sabemos que as Vanguardas Européias traziam a constestação às idéias racionalistas que enfocavam o mundo com suas próprias lentes. Assim é que Baudelaire propõe que o artista deixe o claustro para enfrentar a dura realidade das galerias capitalistas de uma Revolução Industrial que venceu, mas que não vai derrotar a sensibilidade. É por isso que conclama que o poeta seja um voyeur, que se misture às ruas sem ser, por elas, devorado. Teremos, igualmente, Mallarmé nos ensinando a ler também os espaços em branco de uma página, não somente as letras, ensinando nosso olhar a deslizar pelo vazio e nele compreender significações. Ler o silêncio. Encontraremos, igualmente, uma humanidade cansada do poder racionalista que criou, inventou, superestimou a máquina e esqueceu das aspirações humanistas. A civilização que não conseguiu minimizar as diferenças sociais e desembocou numa Primeira Guerra Mundial, de disputa do velho poder. Por isso, o retorno ao primitivismo, à arte africana, da nossa mãe África, nossa origem.


O Brasil das primeiras décadas, de nacionalismo vindo do Romantismo de natureza ufanista, precisava "repaginar" sua identidade. Depois do Positivismo e de suas classificações preconceituosas sobre raças inferiores e superiores, o índio, antes idealizado na esfera de Rousseau no século XVIII como "bom selvagem", elevado a tema romântico (indianismo) com valores clássicos de José de Alencar e Gonçalves Dias assume um papel depreciativo de "raça inferior", como o negro e o próprio português. O Brasil se vê, desta forma, lido em sua matriz como nação inferior, fadada ao fracasso pela sua mistura étnica, precisando "clarear", como desejou Sílvio Romero.


É fundamental, assim, que Anita Malfatti, em 1917, tenha trazido uma visão expressionsta do mundo, pois era preciso que uma certa subjetividade enfocasse uma pretensa realidade preconceituosa e interessante (como sempre) para a elite branca e "pura", defensora da ideologia capitalista.
Entender a pintura de Anita, de Tarsila do Amaral, de Portinari, a literatura de Oswald, de Mário é ser brasileiro, é homenagear uma proposta de inserir o homem brasileiro na cena. Voltarei ao apaixonante assunto!

Erro de Português - Oswald de Andrade

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

Arquivado em: Sem categoria I

2 Comentários »

  1. Comentário por joa de arievilo — quarta-feira, 28 de outubro de 2009 (14:37:49)

    O português chega sempre na hora errada!
    Se porventura chega na hora certa, ele vai ao local errado! (Acontece sempre comigo, rs)

  2. Comentário por Taís Victa — segunda-feira, 9 de novembro de 2009 (14:35:07)

    Pelo menos aqui,posso reviver um pouquinho dessas aulas!
    Banana pro capitalismo selvagem!

Deixe um comentário

Feed RSS dos comentários deste post. URL de TrackBack

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://culturaafrobrasileira.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.